terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Obscuridade que me Revolta na Convicção

O Futebol é um mundo à parte.

Apesar de fazer parte de uma sociedade que se rege por leis e valores e onde a ética é um Bem maior.

Se na sociedade vai reinando a impunidade dos crimes dos ricos e poderosos, no Futebol isso é ainda mais gritante.

O Futebol vive de emoções. Vive da paixão que cada cidadão tem pelo seu clube. Uma paixão cega e que tudo perdoa.

Enquanto na sociedade vai havendo alguma vergonha na cara, no Futebol é tudo à descarada. Os poderosos são intocáveis pelos organismos que regem o jogo. Os poderosos estão protegidos pelas cores que representam. E essas cores cegam.

Enquanto no nosso dia a dia vamos vivendo como cidadãos que acreditam na Verdade e se orgulham dos seus valores, cidadãos respeitáveis e que abominam a mentira e apelam à seriedade.

No Futebol somos meros adeptos. Cegos de amor pela cor e por quem ela enverga, cegos de ódio por aqueles que não se cobrem no nosso manto. Nós contra eles numa luta onde vale tudo.

Os nossos valores que nos identificam ao clube que amamos, aqui não têm importância.

Os nossos valores, a ética e a verdade. Armas de arremesso contra os outros. Não um modo de estar.

As frases que mais tenho ouvido ultimamente são:

“Não podemos ser anjinhos”
Porque ser honesto é ser anjinho.

“No futebol para ganharmos temos de ser iguais aos outros”
Dito por todos. Seja qual for a cor. Todos arranjam “nos outros” uma desculpa para aceitar a prevaricação.

Somos a voz da justiça quando os outros estão em foco. Somos um mar de desculpas quando o foco são os nossos.

Dito isto e porque sou do Benfica,

A mim enche-me de revolta aquilo que nos governa, aquilo que lidera o nosso clube.

São casos atrás de casos. O presidente do Benfica está envolvido em mais de uma mão cheia de casos estranhos e possivelmente criminosos.

Eu tenho a minha convicção. Não posso fazer acusações. Não posso afirmar certezas. Mas posso ter a minha convicção. E a minha convicção é que somos presididos por um criminoso.

Somos presididos por um criminoso que utiliza o nosso clube mafiosamente para servir o seu ego, carteira, poder e interesses.

Tenho pena de ver um clube tão maravilhoso, com uma história tão valiosa e uma vitalidade guiada tanto pelo talento como pela ética, nas mãos de gente que não se coíbe de o meter nos caminhos mais obscuros.

Na sociedade não há lugar para as ilegalidades.
No Futebol não deveria haver lugar para o crime.
No Benfica certamente não há lugar para criminosos. O Benfica é lindo demais para ser envolvido com gente e actos desse calibre.

Infelizmente a paixão cega, amolece o coração e nos faz agir como nunca imaginámos agir. Tolda o pensamento e baralha razões.

Tenho a minha convicção. Uma convicção alimentada todos os anos por situações estranhas que vão surgindo, negócios que se vão fazendo e palavras que vão sendo proferidas.
Uma convicção com mais de uma dezena de anos que vem sendo reforçado dia após dia.

É a minha convicção.
A minha revolta.

Não há vitória nem derrota, não há título nem vergonha europeia, que me acalmem a revolta de ver esta gente nas cadeiras de poder do nosso clube.

Nosso Clube.

Clube.

É a minha convicção. E no Benfica somos todos coniventes.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Indiana Jonas - em busca da baliza perdida



A expressão que faz o título deste texto é do Nuno Matos e não podia ser a melhor forma de começar a falar em Jonas porque o brasileiro é, ao mesmo tempo, um aventureiro pelos relvados e um descobridor de segredos perdidos. Às vezes parece que só ele tem o mapa que nos levará à baliza; a chave que abrirá a porta sagrada do golo.

Jonas é elegância em estado puro. Veja-se o porte altivo, pescoço estendido, cabelo arrumado, olhar aquilino. Movimenta-se pelo campo como se seguisse uma rota só sua, diferente dos demais - aquela que sabe poder chegar às redes adversárias. Jonas encontra o caminho da baliza por estradas invisíveis aos olhos dos mortais, rotas silenciosas, troços da realidade que só ele vê, que só ele sente, que só ele conhece.

O golo acontece a um determinado minuto mas na verdade o golo já aconteceu muitos segundos antes, quando Jonas correu para a bola e a recebeu e desenhou mentalmente o futuro da jogada e o presente da bola nas redes. Jonas joga futebol de 11 como se estivesse num pavilhão a jogar futsal. Trocas simples de bola, em movimento vertical recua ou sobe consoante a harmonia da harmónica colectiva. Faz de pivot, de placa giratória que tudo mete em movimento.

Nené com sotaque, nunca se despenteia, não se suja, não perde tempo com ninharias estatísticas - está ali para jogar futebol, não para fazer a maratona. Parece até alheado do jogo. Julgamos que Jonas estará pensando no que fará a seguir, se comerá peixe ou carne, que filme ver, qual a série que estará a dar na televisão. Quando a bola está em Luisão ou em Júlio César, é possível que Jonas, enfiado entre os centrais, vá dissertando sobre a maravilhosa poética na escrita de Guimarães Rosa, lembrando o não menos maravilhoso «Manuelzão e Miguilim» sob o olhar surpreendido de uma dupla de defesas que ainda não se apercebeu que a bola vai estar dentro da baliza exactamente daqui a 37 segundos.

Jonas já sabe que vai ser golo. Por isso vemo-lo agora a dizer as últimas palavras sobre o escritor brasileiro e a dirigir-se tranquilamente para a linha lateral, onde vai tabelar com o extremo, voltar para a grande área, dar um toque de calcanhar que vai isolar o médio em frente ao guarda-redes e depois simplesmente, já com a baliza perdida finalmente encontrada, agarrar na arca cheia de golos de ouro e distribuí-los pelo público. Vemos Jonas lançar para cada adepto um golo como se todos os adeptos de futebol merecessem um golo só seu. É esse o grande destino do nosso herói: inventar todos os dias um golo novo para oferecer aos benfiquistas. Porque é ele o centro do Universo do golo do Benfica.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018



1) Surpreendentes os dois acontecimentos: a boa primeira parte do Benfica e a má primeira parte do Sporting. De futebol curto, muito retraído e quase só à espera de espaços nas costas da nossa defesa, o Sporting foi uma sombra de si próprio - muito pouco para quem quer ser campeão 16 anos depois. De futebol largo, bem pensado por Pizzi, Jonas e Krovinovic e com um Fejsa a fazer de placa giratória e Grimaldo a criar os desequilíbrios por dentro enquanto Cervi abria na esquerda, o Benfica criou jogo e oportunidades suficientes para chegar ao intervalo a ganhar folgadamente. No entanto, no ecrã dizia 0-1. Só mais um exemplo de que o resultadismo é ciência que não encaixa no futebol.

2) Krovinovic, de longe o melhor em campo. Toda a melhoria que o futebol do Benfica vai apresentando de tempos a tempos deve-se à entrada deste miúdo no onze e a forma como Pizzi e Jonas ganharam uma nova vida para voltarem a fazer aquilo que sabem fazer bem: bom futebol. É sobre este trio de craques que a esperança no 37 assenta. Claro, com Grimaldo e Fejsa a acompanhar a orquestra.

3) Incompreensível a substituição de Rui Vitória aos 55 minutos. Retirar Pizzi quase sempre será um erro, já que é um dos melhores que temos para praticar futebol de qualidade, mas, mesmo aceitando a decisão, não se percebe a escolha por Raul. O Benfica vinha de uma primeira parte de domínio territorial, controlava perfeitamente o jogo na segunda, começava a voltar a criar situações de perigo e o que faz o treinador do Benfica? Parte a equipa, estica-a à espera de correrias e rasgões. Não é por termos 10 avançados que marcamos mais golos, professor. Já que Pizzi nao servia (não se sabe bem porquê, estava a fazer um bom jogo), João Carvalho,  por exemplo, poderia ter servido de moeda de troca mantendo a riqueza da posse de bola e do jogo inteligente do nosso lado.

4) A insegurança do Sporting. Nos últimos 36 anos, o Sporting venceu 2 campeonatos. Isso nota-se quase sempre nestes jogos entre rivais, tal é o medo que os sportinguistas têm de perder. Em vantagem no marcador, a equipa limitou-se a tentar defender bem e a abrir bolas nos extremos em contra-ataque. De equipa pequena. Já na segunda parte, após a má substituição de Vitória aos 55 minutos, um treinador com outra visão teria aproveitado o erro de xadrez do professor e atacado o miolo do Benfica, provavelmente marcando mais um e acabando com o jogo. Pela primeira vez, Jesus borrou-se na Luz como treinador do Sporting.

5) O público bipolar do Benfica. De repente, os adeptos do Benfica odeiam Rui Vitória. Bastou parar de ganhar para que o professor passasse a "pior treinador de sempre". Nas bancadas os insultos são muitos, os pedidos de demissão, as boçalidades. Quantos destes seres não andavam no Verão a dizer que "o Vitória arranja substitutos para as saídas, confiem na estrutura e no nosso grande treinador!"? O professor é fraco? É. Mas não começou a ser fraco há 4 meses. Sempre o foi.

6) O Penta. A derrota provavelmente teria destruído o nosso sonho - não só pela diferença pontual (a 6 pontos dos dois), mas pela carga emocional e pela contestação ao treinador. Com o golo de Jonas, ficando a 5 do Porto e a 3 do Sporting, marcando nos últimos minutos de um jogo em que fomos claramente superiores, acredito que temos uma Luz à nossa espera. Com a qualidade individual deste plantel poderemos ganhar todos os jogos até ao fim. Basta que os jogadores acreditem no Penta como nós acreditamos.

VIVÓ BENFICA!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Chegado o Mercado de Inverno

É altura de tomar decisões.

Faltam 2 jornadas para acabar a primeira volta, os próximos 3 jogos do campeonato são de risco altíssimo (Sporting, ir a Moreira de Cónegos e ir a Braga), estamos a 3 pontos do Porto e Sporting, estamos fora de todas as restantes competições, fizemos uma campanha europeia ruinosa e estamos a praticar um futebol fraco e sem sentido.

Queremos o Penta, queremos inverter o caminho desta temporada. Queremos festejar e honrar a nossa grandeza.

Para isso temos de tomar decisões. E já.

Muito se fala que o presidente do Benfica está à espera do jogo com o Sporting para decidir a abordagem ao mercado.

Porquê?

As necessidades que o plantel tem deixará de as ter caso ganhemos ao Sporting?
Se perdermos o derby vão surgir lacunas ainda não são visíveis?

Não faz sentido.

A menos que o presidente queira ainda perceber a melhor forma de se safar.

Aquela ideia que se vencermos é porque afinal somos muita bons mas que se perdermos o salvador aparece com reforços para dar a volta.

A única decisão a ser tomada é a da manutenção ou não do treinador.
Mantendo-se o actual é obrigatório reforçar o plantel.

Se não sobrevivermos às próximas 3 jornadas sou um defensor absoluto em prosseguir o que restar da época com um treinador interino – movido por um amor glorioso e sem os vícios do professor.

Sendo o Vitória o treinador para a época então a luta pelo título fica totalmente dependente de reforços, os quais têm de chegar já. Ontem.

O guarda-redes Vlachodimos tem de começar a treinar no Seixal no dia 2 de Janeiro. Adiar a sua ingressão para Julho seria gestão danosa. Se é este o guardião escolhido então tem de assumir já. O Varela não tem qualidade suficiente e o Svilar não está ainda preparado.

É também crucial um defesa central com qualidade para assumir já o lugar do Luisão ao lado do Rúben Dias. O Lisandro não é esse central e portanto já passou da hora de ir ao mercado.

Um defesa direito a sério também é necessário. O André Almeida não pode passar uma época inteira sem concorrência. Desenrasca mas não faz a diferença. Ir ao mercado buscar quem possa aos poucos ir roubando a titularidade do Almeida.

Um André Horta. Sim. Precisamos de um substituto para o Pizzi. Já o tivemos, já não o temos. Estamos a jogar num 4-3-3 onde nenhum dos dois médios de apoio tem substituto. O banco precisa de um médio, o Pizzi precisa de um concorrente e o Benfica precisa de um 10 a grande nível.

Por fim talvez um ponta de lança. Se o Vitória optar por regressar à formula mais fácil, ao 4-4-2 de repelões e balões para a frente, é essencial ter um ponta de lança. Um avançado forte que jogue entre os centrais adversários. Era o Mitroglou. Não é o Raúl nem o Seferovic. Muito menos o Jonas.

Apostar no Vitória é assumir a necessidade de atacar o mercado de Inverno em força.

Bem sei que é no de Verão que se deve fazer este tipo de investimentos mas foi opção da Super-Estrutura adiar tudo para Janeiro.

Queremos o Penta. Precisamos de Reforços. Mexam-se. Para Ontem. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A TI, ADEPTO DA INTERVENÇÃO QUE TERMINA SEMPRE EM "...mas depois vais festejar para o Marquês"

(adaptado de um post que fiz ontem, num grupo fechado do FB)

Gostava de te dizer, adepto da frase do Marquês, que esse famoso comentário é absolutamente insultuoso, para alguém que goste de pensar. Pensar nas coisas, pensar no que se diz e no que se faz. E é insultuoso na medida em que aquilo que propões é que toda a gente esteja calada, em todas as ocasiões. E, sobretudo, que nunca pense pela própria cabeça. Aliás, que nunca pense mesmo, e use apenas umas frases feitas, que é só a forma mais jumenta e asinina de se dizer seja o que for. É abdicares daquilo que queres realmente dizer para assumir os ditos de outro, por procuração. É a total descontextualização da mensagem.
E ainda assim, com esse fim de frase mal amanhado, propões que não existam críticas. Mas que, se existirem, sejam feitas da forma que tu achas que devem ser feitas, não é assim? E propões que LFV até pudesse ser o maior ladrão da história da humanidade, desde que nos levasse muitos anos ao Marquês. Propões que possa cuspir na história do clube, que se possa estar nas tintas para os sócios, que possa não querer investir na equipa porque quer andar com umas construções para a frente, construções essas que vão dar encaixe de mais uns milhões aos amigos das obras, que depois o ajudam a aumentar exponencialmente a sua fortuna. Como o faz desde que é presidente do SLB, valendo-se desse privilégio, que o mesmo considera como um estatuto vitalício. LFV é das maiores fortunas de Portugal, à custa do nosso clube, e tu achas isso bem. Propões que estejamos contentes porque esse sócio do Sporting e do FCPorto, esse desconhecedor total de Futebol, esse personagem que se enfada com o Jogo, e que não o sente nem sofre como nós, é, em última análise, o tipo que nos tem levado ao Marquês. Propões que abracemos e aceitemos e agradeçamos a esse tipo, que se está a cagar para o emblema, e que só pensa na vaidade e no proveito próprio. Alguém que achou que, ao fim de quatro anos de sucessos, já tinha comprado um número suficiente de sócios atrasados mentais, que preferem que lhes caguem na boca e lhes matem a memória de um clube maravilhoso, desde que os levem para o Marquês. Para festejar, não é isso? E agora pergunto-te eu. O que é que tu vais festejar no Marquês, quando ganhamos um campeonato? Festejas, exatamente, o quê? O facto de teres um presidente que não é benfiquista? Festejas o facto de teres um presidente que "desvia" camiões alheios? Ou festejas o facto de teres um treinador que é um yes man incompetente, escolhido por LFV por ter, exatamente, esse perfil de protozoário? Festejas a saída de Bernardo Silva? Festejas a forma como a nossa formação é vendida, a preço de saldo? Festejas os sucessos financeiros do Jorge Mendes, é isso? Ou dos outros comissionistas? Festejas o empurrão a Guedes, numa altura em que o puto não queria sair, porque festejas sempre o facto de vendermos jogadores por valores que parecem ótimos, nas gordas de um qualquer jornal, mas que, no fim das contas, são ótimos negócios para todos os comissionistas que encontram pelo caminho. Ótimos negócios para todos menos para o clube. Ou talvez festejes o facto de poderes gozar com os teus amigos do Sporting e do FCPorto, em vez de serem eles a gozar contigo.
É disto que se trata? Ganhar mais do que os outros, para poderes mandar mais bocas do que os outros, lá na oficina ou no escritório? Para não te "foderem a cabeça"? Festejas porque odeias os outros clubes, é assim? E também talvez festejes o facto de JJ perder mais um campeonato, porque merece perder tudo, a partir do momento em que te abandonou, não? Pobrezinho do bebé, como se fosses um ex namorado ressabiado, trocado por outro gajo que achas mais feio e mais gordo que tu. É isso? É que eu nem percebo aquilo que festejas, com a crítica e subjacente proposta que fazes.
Eu, quando festejo os campeonatos ou as vitórias do Benfica, nem vou para o Marquês, vê lá bem. O Marquês é o carnaval onde se junta tudo, desde malta de outros clubes até àquele pessoal que lá vai só para gamar e para fazer merda. O Marquês foi transformado numa lixeira a partir do momento em que decidiram profissionalizar a festa e matar a espontaneidade de um coletivo. Eu festejo tudo o que tenho que festejar com amigos e família, em casa ou na rua, no estádio ou à porta dele. Numa qualquer roulote manhosa, a cheirar a ranço, onde bebo jolas e como aquela bifana que me poderá fazer cagar fininho durante dois dias. Festejo em cada esquina onde haja outro benfiquista a festejar. E nem que já esteja todo fodido, em etílicos cantos gregorianos, abraçamo-nos por esse amor comum. Festejo com os meus colegas de bancada de anos e anos e anos, que são também os meus colegas das vitórias e das derrotas. Colegas dos maus e dos bons treinadores, do riso e do choro, dos berros lancinantes e dos insultos cabeludos aos árbitros e suas famílias. Colegas daquelas bocas espontâneas, que tantas vezes partilhamos por audição comum, e que metem filas inteiras a rir. Festejo com esses colegas, os parceiros das grandes noites europeias, é certo, mas também companheiros daqueles jogos onde já não há nada para ganhar. Sim, estivemos lá, no Basileia. E sim, estou sempre lá, sejam jogos de apresentação ou com os rivais diretos, sejam jogos da taça da liga ou jogos a feijões. O Benfica é parte integrante da minha vida, e eu amo o Benfica muito para além das circunstâncias. E, tal como amo os meus filhos, que são o meu amor maior, e como os critiquei nas alturas que achei serem as certas, assim o faço com tudo o que amo de verdade. Sendo duro, muitas vezes. É o que faço com os meus alunos também. Garanto-te que nunca os assobiaria, como nunca assobio o manto sagrado. Qualquer jogador que vista a camisola do Benfica merece a minha consideração e o meu respeito, desde que a respeite como eu. Sei exatamente o que festejo, porque o festejo, onde o festejo e com quem o faço. E nem tu, nem ninguém, serão alguma vez donos dos meus festejos.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

20 anos de idas ao Estádio da Luz


7 de Dezembro de 1997. O Benfica recebia o saudoso Salgueiros em jogo a contar para a 12ª jornada do campeonato nacional. Um jogo como tantos outros. O meu primeiro jogo. Pela mão do meu pai, adepto moderadamente fervoroso, encorajado pelo meu tio João, residente na freguesia salgueirista de Paranhos, cidade do Porto, mas benfiquista desde sempre e sócio com quotas em dia mesmo vivendo na Invicta e com a companhia da minha prima Ana Rita, assim foi, naquela noite fria de 1997, que me estreei presencialmente no velhinho gigante de betão.

O jogo foi como tantos outros da década de 90. Partindo em 4º lugar, atrás de Rio Ave e Vitória de Guimarães e já a 8 pontos do líder FC Porto, aquele Benfica onde coabitavam génios como João Vieira Pinto e Michael Preud'homme com jogadores de qualidade sofrível (chamemo-los assim, para sermos simpáticos) como Tahar, El-Hadrioui, Panduru ou Taument, empatou a duas bolas com Salgueiros.

As memórias sobre esse dia e desse jogo, pese embora os 20 anos que me separam da data e o facto de ter apenas 7 anos de idade à altura, são mais que muitas. Desde a meia volta que tive de dar ao recinto para conseguir entrar na porta certa, para me sentar no topo norte (cadeira ou cimento?) até ao assoberbamento pela dimensão do Estádio e pelo ambiente. Sentia-me em casa. Tantas vezes tinha pedido para ir ao Estádio da Luz e finalmente, com sete anos e meio, o sonho tornava-se realidade. Havia uma felicidade em estar ali que ainda hoje sinto.

Dali para a frente, mais duas idas à Luz nessa temporada. Para assistir a um empate com o Estrela da Amadora numa tarde chuvosa (bis de... Martin Pringle!) e a primeira vitória, numa tarde solarenga de primavera, por 3-1 contra o Desportivo de Chaves. Historias de jogos a que fui e de jogos aos quais não marquei presença. Uma noite de chuva torrencial na qual, semi-abrigado no túnel de acesso à bancada, vi o Benfica, após estar a perder 0-2 ao intervalo com o Varzim, virar para 3-2. Aquela tarde em que recebemos a Fiorentina de Nuno Gomes para jogo de apresentação com o Estádio à pinha. E o que chorei por não ter ido ao derradeiro jogo da Catedral contra o Santa Clara.

Não são muitas as recordações da antiga Luz. Nem o tempo em que as vivi corresponde a um período perto de ser positivo na História do Benfica. Ainda assim, é com muita saudade que recordo o tempo em que a inocência de uma criança permitia acreditar que uma equipa composta maioritariamente por marretas seria capaz de ganhar jogo após jogo até à conquista de um campeonato que escapava há demasiado tempo.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Por mim. Pelo Futebol em Portugal

Há alguns anos atrás comecei a seguir pontualmente os vários programas “desportivos” que passavam na televisão.

Havia menos canais, havia menos programas e havia mais futebol.


Durou pouco tempo essa minha assiduidade. Rapidamente me fartei. O número de programas aumentou (já eram uns 5!) e a desonestidade intelectual, a clubite aguda e as arbitragens tomaram conta do tempo de antena.

Tomei uma decisão. Chega! Não ia mais dar àquele peditório nem continuar a permitir que certas pessoas criassem curto-circuitos no meu cérebro com as suas desargumentações.


Seleccionei 2 programas de televisão e um de rádio e passou a ser somente essa minha rotina semanal. Longe de polémicas inventadas e mais próximo da bola.

O tempo passou, a polémica aumentou, mais casos e casinhos assaltaram o Futebol português e o jogo começou cada vez mais a disputar-se nos canais televisivos.


Principalmente nos últimos 3 anos houve uma grande mudança de paradigma no futebol português. As exibições passaram para segundo plano. Os resultados dos jogos passaram a servir somente como pedras de arremesso e auxiliares de argumentação.
A impressão que passa é que o verdadeiro campeonato é disputado por comentadores, cartilheiros, directores de comunicação e funcionários das televisões dos clubes.


Ao ter sido convidado a escrever neste espaço, senti um crescer da responsabilidade de saber tudo sobre tudo o que se ia falando à volta do fenómeno do futebol.
A minha consciência obriga-me a estar totalmente informado para poder opinar com autoridade sobre qualquer assunto.


Nesse sentido, para poder responder aos que me procuram e aos que aqui comentam, desatei a ver diariamente todos (ou praticamente todos) os programas “desportivos”.

E assim tem sido.

Sei que ter o conhecimento é muito diferente de participar no circo mediático. Oiço mas não falo. Dou a minha opinião quando me perguntam mas não entro em polémicas nem em prostituições intelectuais.

Sei que não sou um participante activo neste clima mas está na hora de também não ser um participante passivo.

As estações de televisão perderam a vergonha. Permitem que os clubes definam quem eles contratam. Ignoram a importância do serviço público. Só se importam com as audiências.

Portanto decidi fazer a minha parte e não mais ser um incremento desse indicador.

Já o tinha decidido fazer, e comunicado ao meu circulo de discussão, no inicio da semana passada. O pós-clássico só veio acelerar a concretização.

Quem quer uma mudança e uma limpeza no futebol português não se pode ficar pelas palavras. Pelas palavras ficam os dirigentes dos nossos clubes.

Temos de fazer a nossa parte e isso não se resume à nossa postura perante o jogo. Temos de reduzir os programas televisivos ao que têm sido – lixo.


Apelo à greve dos telespectadores. Ignorem todos os programas que sejam apenas uma arena de interesses e um divulgador sensacionalista de pequenas podridões.

Os portistas terão sempre um filtro azul. Os sportinguistas um filtro verde. Os benfiquistas um filtro vermelho. Esse nunca será o problema. Hoje vai é tudo muito além disto.

Eu vou fazer a minha parte. Cada um que faça aquilo que sentir na consciência dever fazer.

Voltarei a remeter-me a 2 ou 3 programas semanais, todos escolhidos a dedo. Quero mais Futebol. Quero menos curtos circuitos. Quero sentir o cheiro da relva enquanto vejo televisão. Quero parar de deixar que me tentem fazer de idiota.

Quero programas a falar de bola. E apelo a que os apaixonados pelo jogo acordem pois há muito mais a discutir do que os 3 grandes.

A massa associativa do Guimarães não merecerá que se fale mais no seu clube?
O crescimento do Braga nos último 10 anos não terá direito a um maior espaço mediático?
O que o Rio Ave tem conseguido com bom futebol, ano após ano, não merecerá maior discussão?
A segunda liga irá continuar a não existir para o telespectador?


Quando se começar a discutir menos as polémicas, quando se cortar o tempo de antena às mentiras e aos mentirosos, irá sobrar tempo para trazer o Jogo ao comentário.


Começarei a minha nova rotina esta Quinta com o exemplar Grande Área. 




sábado, 2 de dezembro de 2017

Olhar sobre o Clássico

Entrada de águia. Entrada à Benfica.

Bom 11, boa atitude e boa preparação.

Uma equipa equilibrada, a fazer uma pressão em bloco e com os criativos sempre a dar e a procurar as linhas de passe.

Foi assim que entrámos no Dragão.

Assumimos a bola. Fomos para cima deles. Partimos a equipa portista que não conseguiu ter a bola controlada para começar jogadas de ataque.

5 minutos. 10 minutos. Uns 15 minutos de grande Benfica. Um arranque de jogo onde podiamos ter marcado.

Pena ter durado só um quarto de hora, um 1/6 do tempo regulamentar.

O entusiasmo inicial passou e o Porto começou a reagir. Inicialmente só com bolas bombeadas para o Marega - um poço de força e velocidade - que pela linha deixava todos para trás. Contudo o maliano - também um deficitário em técnica - se ia atrapalhando depois dos piques.

Mas estes arranques foram dando moral ao Porto e foram expondo aos poucos as nossas deficiências de jogo, algo que foi fazendo a equipa caminhar para as exibições comuns desta primeira metade da época. 

O Salvio bem marcado não teve espaço para as suas correrias. Desapareceu.

O Grimaldo perdeu liberdade para subir. É um ala esquerdo e nunca o defesa esquerdo. Perdeu ele e perdeu o Cervi. 

O Jonas começou cada vez a ficar mais sozinho. O Pizzi limitou-se a trabalhos defensivos. Só o Krovinovic parecia poder trazer alguns desiquilibrios no nosso ataque.

O Porto foi crescendo na primeira parte. Começou a ter mais bola, o Herrera pôde falhar sem consequências, o Sérgio Oliveira começou a ter mais bola para pensar, o Brahimi apareceu mais e o Aboubakar começou a jogar.

Uma primeira parte sem grande história, muita luta e com o Benfica a começar melhor mas com o Porto a terminar por cima.

Sobre a segunda parte quase prefiro não falar. Não falaria por me custar mas nunca pode ser esquecida. Porque sim, o Benfica sai pontualmente vivo do Dragão mas pareceu morto durante aqueles últimos 50 minutos.

Minutos fáceis de resumir.
O Sérgio Conceição voltou à fórmula do inicio de época ao colocar o Otávio no lugar do Sérgio Oliveira. O Rui Vitória achou que a equipa não jogava por falta de força no meio-campo e por isso lançou, ineficazmente, o Samaris. O Sérgio Conceição a desesperar por marcar de certeza que se arrependeu de ter tirado o Aboubakar. O Porto esmagou e, com toda a facilidade, criou várias oportunidades de golo. O Varela esteve concentradissimo e mostrou que entre os postes é bastante bom. O Marega foi um desastre, primeiro na condução e depois na finalização. O Benfica não atacou e não sabe defender. O Porto foi para cima e o Benfica simplesmente não jogou.

Foi algo muito pobre e totalmente inaceitável aquilo que fizemos na segunda parte. Espero que o Rui Vitória tenha noção e que trabalhe sobre isso, deixando-se de ilusões e de chavões de auto-ajuda.

Este Benfica esteve morto até o apito do Jorge Sousa nos ressuscitar com um empate que nos mantém a 3 pontos da liderança. Mas e agora? Seremos Benfica ou uma sombra de nós próprios?

Sobre as polémicas:

Percebo que um árbitro tenta desenvolver um plano de arbitragem durante os 90 minutos. Há o Bom Senso e esse protege o espectáculo. Contudo erros são erros.

Amarelo por mostrar ao Filipe logo no inicio do jogo. Penalty do Luisão a fechar a primeira parte. Fora-de-jogo mal tirado ao Porto numa jogada de muito provável golo do Herrera. Falta e amarelo por mostrar ao Alex Telles por mão na bola.
Já o Zivkovic foi bem expulso.

O Benfica fará figura triste se andar a falar sobre a arbitragem deste jogo. É respirar de alivio pelo empate e focar na pobreza que foi aquela segunda parte.

O Porto tem total razão em se queixar da arbitragem. Passar a semana a falar disso será só desespero. Deviam preocupar-se mais com a qualidade exibida pelo Marega, com o desaparecimento do Óliver, com os desempenhos do Herrera, com as inseguranças do José Sá e com a falta de banco de qualidade em termos de soluções de ataque.

Quanto à situação do adepto não espero nada menos que um jogo no Dragão à porta fechada. 

Depois da vergonha europeia, este mês vai decidir a nossa continuação na Taça - jogo em Vila do Conde - e na Taça da Liga - recepção ao Portimonense e jogo no Bonfim, numa disputa acesa com o Braga.
Além disto, vai também definir como chegamos ao Derby na Luz.

Benfica - Estoril
Boavista - Sporting
Setúbal - Porto

Tondela - Benfica
Sporting - Portimonense
Porto - Maritimo

Cinco vitórias crucias e uma vitória, com o Basileia, pela honra do manto.
Portanto, que Benfica iremos ter? Um Benfica lançado ao Penta ou um Benfica moribundo?
Passo a palavra ao Rui e a bola aos jogadores.

Isto sem nunca esquecer o quanto lindo é vermelho e branco.



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Obrigado, Júlio César


Nunca fui um fã incondicional de Júlio César. Mesmo nos melhores anos da sua carreira, ao serviço do Inter de Mancini e de Mourinho, nunca o coloquei num patamar de qualidade onde se encontravam outros grandes nomes das balizas do futebol internacional. Ainda assim, e sobretudo após esta passagem de três temporadas pelo Sport Lisboa e Benfica, ganhei por Júlio César uma admiração e um carinho muito especiais. 

A carreia de Júlio César foi sempre marcada pela palavra "superação". E foi precisamente à medida que fui conhecendo a sua carreia que a minha admiração pelo goleiro brasileiro foi crescendo. Depois do início da carreira no futebol brasileiro, como tantos outros, no clube do coração, o Flamengo, no qual experienciou a titularidade aos 17 anos, alguns títulos e a luta para evitar a despromoção do Brasileirão, chegou à Europa em 2004 pela mão de Roberto Mancini. No entanto, mal chegou, foi emprestado ao Chievo Verona, clube no qual, durante os seis meses de empréstimo, não teve sequer a hipótese de se estrear. Regressaria ao Inter de Milão no início da época 2005/2006 para ser o quarto guarda-redes da turma interista. Até 7 de Julho de 2005, o dia que mudou a carreira de Júlio César.

Londres, 7 de Julho de 2005. Um atentado terrorista em 3 pontos da rede de Metro e um autocarro provoca 56 mortos e mais de 700 feridos. O Inter de Milão faria parte da pré-temporada em Londres e  perante as recusas de Francesco Toldo, Fabián Carini e Paolo Orlandoni em viajar, Júlio César aceita e conquista a titularidade da baliza dos nerazzurri para a temporada 2005/2006. Nas sete temporadas ao serviço do Inter conquista 14 títulos com destaque natural para a vitória na Liga dos Campeões em 2010 (com Mourinho ao leme), ano em que é eleito melhor guarda-redes a actuar no velho continente. E é no topo da carreira que surge o abismo.

Quartos-de-final do Campeonato do Mundo, África do Sul 2010. O Brasil adianta-se no marcador e está a 45 minutos de alcançar as meias-finais. Na segunda parte, após cruzamento da direita, uma saída em falso potenciada por falha de comunicação com Felipe Melo permite o empate dos holandeses, que minutos mais tarde fariam a reviravolta no marcador e deitavam por terra as esperanças dos canarinhos. Júlio César não se esconde. Dá a cara e assume responsabilidades na flash interview perante 200 milhões de brasileiros. Mas vai-se abaixo. Desanima. Desmotiva. Afrouxa. E o rendimento desportivo cai a pique no Inter de Milão. Dois anos depois da conquista da Liga dos Campeões, sai de Itália e procura novo rumo na carreira com os olhos postos no regresso à selecção brasileira, indo para o pequeno Queens Park Rangers, da Premier League.

Apesar de boas exibições individuais, que lhe valeram o regresso à selecção brasileira, o QPR acabou relegado ao Championship. E nem tudo foi um mar de rosas neste ínterim. Em três anos passou de melhor guarda-redes do mundo a desempregado. Teve de comprar o próprio equipamento e foi treinar sozinho para parques com o filho. Mas superou as adversidades e regressou pela porta grande ao escrete, defendendo um penalty de Diego Forlan nas meias-finais da Taça das Confederações 2013, conduzindo o Brasil à conquista do troféu e levando para casa o prémio de melhor guarda-redes da competição.

E é no ocaso de uma carreira brilhante que o destino atraiçoa Júlio César. O Brasil, por muitos designado como um dos principais favoritos à conquista do Mundial 2014, após ultrapassar o Chile  no desempate por grandes penalidades, no qual Júlio César defende três cobranças dos chilenos, é cilindrado pela Alemanha (7-1). No final dessa competição, Júlio César pondera anunciar o adeus aos relvados. Mas contrariado pela família, mantém as luvas calçadas e viaja para Lisboa para encontrar uma nova família futebolística.

Três épocas completas de Benfica. Outros tantos campeonatos, uma Taça de Portugal, duas Taças da Liga e duas Supertaças. No Benfica encontrou, além dos títulos, um clube que o acarinhou de forma muito particular e igualmente merecida. Deu estabilidade à baliza encarnada, que se encontrava órfã depois da saída de Oblak. E as suas defesas valeram títulos. Foi absolutamente decisivo com enormes intervenções na época do bicampeonato e igualmente muito importante, apesar de ver o seu papel subvalorizado, na época do tricampeonato, na qual defendeu a baliza encarnada durante mais de 2/3 da temporada.

De Júlio César fica além da qualidade, da simpatia e do carisma, a personalidade e o exemplo de liderança. Mesmo nos piores momentos pessoais ou colectivos, nomeadamente ao serviço da selecção brasileira, Júlio César não se escondeu e deu sempre a cara nas entrevistas após os jogos, assumindo responsabilidades. Não me esqueço também das várias vezes em que na rodinha de jogadores que se forma imediatamente antes dos jogos começarem, Júlio César usou da palavra para incentivar os colegas. Recordarei a forma correcta e cordata como aceitou a passagem de testemunho, de titular para suplente, sem levantar ondas e mantendo o profissionalismo. E a forma honesta como preferiu, como grande Homem que seguramente é, sair do Benfica pela porta da frente, pela porta grande. Obrigado por tudo, Júlio César.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O HAT-TRICK DE RUI ÁGUAS – DOIS GLORIOSOS GOLOS E UM EXTRAORDINÁRIO QUASE-GOLO 



1988, segunda parte das meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Eu, o meu Pai e mais 129.998 benfiquistas na Luz sob o mote do Presidente João Santos - "Um benfiquista, uma bandeira" - cantamos "Benfica, Benfica, Benfica" a levar o Glorioso até à final de Estugarda. Mats Magnusson de costas faz um passe a isolar Rui Águas. O romeno do Steaua ainda consegue recuperar a bola, mas logo o filho do Bicampeão Europeu a rouba e segue rápido para a baliza, meio descaído na esquerda. Entra na área.

(O meu Pai mete a mão na minha perna e flecte os joelhos à espera do golo, eu meto a mão na perna do meu Pai e flicto os joelhos a desejar o golo, as pernas e as mãos cruzam-se e os joelhos flectem-se a ordenar o golo, os filhos metem todos as mãos nas pernas dos pais, os pais metem todos as mãos nas pernas dos filhos, todos os joelhos do mundo flectidos com saudades do golo. Tudo em tensão: mãos, pernas, joelhos. 130.000 pais e filhos, amigos, padrinhos, vizinhos e estranhos agarram-se às pernas uns dos outros numa corrente humana de pernas, joelhos e mãos a fazer do Estádio da Luz um absurdo fenómeno de flexões colectivas e o coração aos saltos, em místicas diástoles em gloriosas sístoles, pulsando desejos infantis: "faz golo, faz golo, faz golo, faz golo, faz golo, faz golo")

Rui Águas dá um toque ligeiro para a frente (amacia-a, prepara-a, acalma-a). Quando lhe aparece um adversário ao lado, mete-lhe a bola por entre as pernas, e, já sem espaço, salta - salta como um cavalinho, como se fosse o último salto de sempre - para poder rematar. Um lance à Jonas (ou é Jonas que tem coisas de Rui Águas?). Remata e a bola é defendida no chão por Liliac. Uma jogada transcendental que começou com Silvino e o seu equipamento verde a colocarem a bola em Álvaro que levantou na esquerda para a cabeça de Pacheco que, junto à linha, cabeceou para Magnusson que, de costas, meteu em Rui Águas e o resto é História. Um extraordinário quase-golo.

(Por todas as casas e cafés do país, por todo o mundo, os joelhos flectidos, as mãos nas pernas, a saudade do golo esvaem-se em quase-golo e os corações benfiquistas voltam à nervoseira habitual. Tudo sempre à espera de mais um golo. Do terceiro golo em viagem para Estugarda.)

A bola distancia-se da baliza adversária, segue para os romenos. Já fora do plano das câmaras, Rui Águas, longe da bola e no meio dos centrais romenos, frustrado pelo extraordinário quase-golo, automotiva-se olhando o Estádio da Luz - "Um Benfiquista, uma bandeira" - e, em pleno relvado, começa a sonhar com os dois golos que já tinha marcado na primeira parte.

(GOLO GLORIOSO NÚMERO 1 - Aos 25 minutos, canto para o Benfica. Pacheco trata da ocorrência. Como Águia Vitória, a bola voa por cima do relvado. Entra na área. Mozer, armado em Mozart, já tem tudo na cabeça e desvia para o segundo poste. A bola parece meio perdida, vai a sair do perigo. Mas não, há Rui Águas e a sua disponibilidade mítica para o salto-peixinho. O goleador anteviu, reflectiu, dispôs-se ao chão. Cabeceou não só para o lado contrário do guarda-redes como ainda lhe deu efeito para cima - poucos jogadores no mundo seriam capazes desta loucura: talento, técnica e uns pozinhos de despero. A redonda entra no topo da baliza, abana as redes e depois é o caos, o Estádio entrou em erupção e a lava caiu quente a queimar o relvado. Lembro -me de ser atirado com os meus 6 anos para 7 ou 8 filas abaixo. "Foi você que perdeu o seu filho num golo do Benfica?"

GLORIOSO GOLO NÚMERO 2 - Aos 33 minutos, Mozer (outra vez doidão por aquilo que hoje se definiria como o "movimento ofensivo"), segue meio-campo romeno adentro, faz passe para Rui Águas, que sofre falta. Livre perigoso, sobretudo se na nossa equipa tivermos um Diamante chamado Diamantino. O capitão não marca o livre de forma normal, ele faz diferente. Ele faz diferente: amanteiga a bola, marca um livre como se passasse manteiga por pão quente. Ela segue tão amanteigada por cima dos romenos só para encontrar a cabeça de Rui Águas que, em jeito perfeito como lindíssimo cabeçeador que sempre foi (um dos melhores da História do Futebol), a desvia, a encaminha, a ensina, a dirige para dentro das redes. Rui Águas é abraçado efusivamente, não notando que, nesta altura, na maluqueira dos 130.000, eu já tinha sido atirado para dentro da toalha branca do Eusébio. "Foi Você que encontrou o seu filho num golo do Benfica dentro da toalha do Eusébio?")

Rui Águas pensa em José Águas, o Pai. O bicampeão europeu homenageado pelo filho com a melhor forma que um filho pode homenagear o Pai: repetindo-lhe os feitos. 20 anos depois, o Benfica estava outra vez numa final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Otília, a Rainha das bifanas



Na noite anterior ao dia que será o dia de jogo, Otília deitada na cama faz contas de somar. Febras, entremeadas, hambúrgueres, salsichas, chouriças, pão normal, papo-seco, pão de cachorro, ketchup, mostarda, barris de cerveja, garrafas de vinho, uma de moscatel, outra de uísque barato, azeite, óleo (muito), sal, pimenta, especiarias (as que der para comprar), guardanapos, batatas de pacote, batatas-palha, cenouras, pickles, lavar copos, comprar pratos de plástico, confirmar se a televisão está boa, ligar para os senhores da MEO, ir às botijas de gás, limpar a rulote, escrever na lousa e no papel as promoções («à entermiada, hamburgue, hot-dog, chourisso e febra»), lembrar o Manel de encher os pneus da viatura, dizer-lhe com carinho: «põe água no carro», ao filho pedir que leve os aventais pretos, à nora não dizer nada, que é uma cabeça tonta.

Passa a noite nisto: relembra tudo uma vez, depois volta a percorrer a listagem das coisas a fazer, perde-se a meio, começa de novo, «febras, entremeadas, hambúrgueres...». Com os anos de ofício, as coisas a fazer são lembradas com método, raramente mudam de posição, tudo tem a ciência que Otília criou na sua cabeça e no seu agir. Começa pelas carnes, a meio põe a necessária padaria, depois vêm os molhos, logo a seguir os bebes, as gorduras, os condimentos, acompanhamentos, a higiene, os utensílios, a necessária burocracia, as limpezas, os escritos e, por fim, os avisos à navegação da tripulação da rulote para que se não percam num detalhe, morram num pormenor, destruam a noite de negócio por um esquecimento sem sentido.

Otília tem dos dias a ideia de um trilho de comboio - pouco interessa o chegar, mais vale acautelar o ir. Limar os parafusos, arranjar as estacas de madeira, limpar as plantas que nascem no meio, fazer brilhar o metal. O comboio - esse comboio que anda em movimento há exactamente 64 anos - deve passar sem um sobressalto, galgar em direcção ao lugar para onde vai sem nenhum contratempo, dentro do tempo previsto, indo indo indo, só vapor, velocidade e horas marcadas no relógio grande dos ponteiros pretos das estações. Chega-se ao destino não por acaso divino mas pelas mãos de homens que acautelam o seu chegar. Os silvos da noite, os raios do dia, o fumo, a humidade, as temperaturas, os frios e os calores, a força do tempo - tudo mecânicos elementos que conspiram contra a desenvoltura do comboio em movimento. Basta que uma roldana, uma porca, uma lasca, um esquecimento aconteçam e toda a engrenagem afunda num tropeço de forma, abrandando o passo ao comboio, sulcando-lhe as vontades, quebrando-lhe o eixo, desencarrilhando-lhe as promessas.

Houve um dia, já longínquo na memória, dia de sol glorioso de um princípio de tarde junto ao Estádio da Luz (o verdadeiro; Otília ainda hoje diz do Estádio antigo esta palavra honesta e genuína: o "verdadeiro"), em que, por maus preparos e ineficazes antecipações, Otília ficara sem pão nem cerveja em frente a uma horda de benfiquistas sedentos, esfomeados, desvairados, alucinados, dementes. Culpa, claro, uma e outra e mais outra vez, da nora que, tendo ido de manhã tratar das unhas dos pés, se esqueceu acidentalmente (Otília reforça sempre, quase 30 anos passados, o a-c-i-d-e-n-t-a-l-m-e-n-t-e com uma projecção que fere fundo em quem a ouve) de passar pela panificadora e pela Central de Cervejas. Como se fosse possível alguém acordar um dia e desmemoriar o cérebro para função tão fundamental, como se um ser humano - na palete existencial entre o profundamente bronco e o brilhantemente genial - pudesse esquecer-se de tais ofícios e deveres.

As gentes aos urros, vociferando impróprios impropérios futebolísticos sobre Otília, queixando-se, esfomeados, da pouca-vergonha que era aquela barraca de madeira sem pão para o conduto nem líquido para a goela. «Nunca mais cá volto, ah é certinho», ouviu Otília a mais de 342 benfiquistas em fúria, chorando por dentro a perda da reputação tão a pulso conquistada a amor, carinho, saborosíssimas gorduras feitas de ancestrais segredos que sobreviveram na família Casimiro séculos e séculos e séculos até desaguarem nos seus truques mágicos de mulher veloz a tratar os comeres. Disso nunca Otília se esquecera na vida e disso fazia questão de recordar pelo menos uma noite em férias - não para estragar o convívio estival, mas para alertar os parceiros de ofício e de vida para as profundezas mórbidas do desconcertante desleixo dos elementos. A nora Fátima tudo isto ouvia e calava - engolia em seco, olhava o horizonte, agarrava-se vezes sem conta ao copo de fresco verde e deglutia, sem botar faladura, uva, água e humilhação. O filho, cansado de ouvir os gritos da esposa (que Fátima no recato do lar ganhava novas coragens), desvirtuava o discurso da mãe, parodiando: «ao menos isto agora dá para rir», o que enfurecia ainda mais Otília e a fazia dar pontapés debaixo da mesa ao marido - que não estava minimamente interessado na conversa, perdido de uísque, lagosta e visões de mulheres lindas passeando cães no calçadão.

Otília era Benfica pela parte do Pai; benfiquista por influência da mãe. Em nova (há quanto tempo), comovia-se com José Águas: uma paixão que lhe durou a vida inteira e ainda não esqueceu - atrás das garrafas, junto ao bibelot de uma menina triste que tem na prateleira de cima, mora ainda o elegante benfiquista levantando uma orelhuda Taça dos Campeões. Por decoro e respeito ao esposo, fixou-a ali para que só ela o veja. Quando alguém pede um Martini (é tão raro pedirem Martinis nas rulotes), ela esquece-se das febras, segurando o antebraço do Manel: «deixa, eu sirvo; está um calor insuportável nas carnes».

Sente saudades do Benfica, Otília. Saudades de ser feliz, indo ao estádio. Comove-se muito com a alegria das pessoas antes dos jogos; entristece-se com a tristeza das pessoas depois dos jogos. No meio, enquanto as pessoas se alegram ou entristecem a ver o Benfica, ela fica sentada num banquinho de madeira a ouvir o relato. Cansada, de olhos cheios de fumo e bochechas encarnadas de calor, fecha os olhos e encosta a cabeça contra a porta da rulote. Imagina que está dentro do estádio, ouve as jogadas e vê tudo por dentro dos olhos. Quando é golo, festeja com o marido, o cunhado, a nora e os filhos. Imitam o som das bancadas: «Glorioso SLB, glorioso SLB», lá do alto de onde vêem só luzes e um fumo que sai do relvado, sobe as bancadas, torneia os tectos e se esvai em direcção ao céu. Todos aos saltos na rua, correm até ao viaduto, batem em carros, apitam buzinas, abraçam-se uns nos outros todos engalfinhados. Depois, quando o golo perde o prazo de validade dos afectos, voltam silenciosos para perto da rulote e baixam o volume do som para favorecer outro golo - se ouvirmos baixinho o relato, potenciamos novo milagre.

Dependendo do resultado final, Otília assim também depende de si própria. Se o Benfica ganha, está tão feliz que se torna mecânica no ofício - ninguém quer saber da qualidade da febra se ganhou. Se o Benfica perde, fica tão triste que faz questão de preparar as melhores iguarias para os olhares e gestos e palavras desiludidas dos clientes que estão quase quase a chegar - pior do que a derrota, só mesmo a injustiça de lhe juntar uma ceia tão mal servida.

Otília finge sempre que não nos observa. Se olharmos para ela, os seus olhos estão na grelha; se não olharmos, ela olha-nos com amor e ternura. A dor nossa é a dor dela. A sua infelicidade é a mesma que sentimos. É por isso que Otília faz brilhar os olhos sempre que, perdidos ou ganhados, lhe dizemos com o coração na boca: «Estas são as melhores bifanas do mundo».

domingo, 5 de novembro de 2017

Os Caminhos do 4-3-3

Em Março de 2013 Jorge Jesus dizia:

"Não é necessariamente um modelo para as equipas pequenas mas, para mim, é o mais fácil de anular."

Realmente se olharmos para a táctica no papel é com esta ideia que ficamos.

Quatro defesas como normalmente as equipas se apresentam.
Três homens no meio campo a assegurar o equilibrio e a posse de bola mas longe dos sectores ofensivos.
Dois extremos sem apoios. Isolados junto às linhas.
Um avançado preso no meio dos centrais numa luta titânica de um contra o mundo.

No papel, na base da construção do 4-3-3, é isto que vemos. Esta táctica transmite-nos um equilibrio defensivo com um meio-campo controlador mas com uma quase total inoperância ofensiva.

Basta fechar o avançado e encostar nos extremos e o adversário não ataca.

O 4-3-3 fica então anulado, incapaz de criar e de projectar jogadas ofensivas.

No papel o actual treinador do Sporting tem razão. O 4-3-3 é o sistema mais básico, é a táctica que menos exige a quem o defronta e mais exige a quem o utiliza.

É esta a grande magia do 4-3-3 - A exigência que impõe a quem actua nele.

Um 4-3-3 defensivo, com três motas no ataque, pode ser utilizado sempre naqueles duelos de Pequenos vs Grandes.

O 4-3-3 ofensivo só pode ser utilizado por Grandes que tenham uma mente brilhante no comando (Pep Guardiola por exemplo).

Este sistema só por si oferece estabilidade defensiva, equilibrio no meio-campo e posse de bola. Um treinador que seja também um maestro irá oferecer-lhe um caracter ofensivo não advinhável.

Batuta na mão, indicar os intérpretes e começa a música.

A linha de 4 defesas perde três elementos.

Um lateral é extremo. O outro é médio.

Um defesa dá dois passes em frente. O outro visita o trinco.

O trinco é construtor.

Os médios são vagabundos. Pac-Men das linhas de passe. Comem todas.

Os extremos perderam a linha. Um troca os olhos aos centrais. Outro junta-se aos médios, abrindo espaço ao lateral.

O avançado? Outro Pac-Man. Come todos os espaços.

Um carrossel de emoções. O 4-3-3 rapidamente se transforma num 1-7-2. A bola avança e aparece o 1-3-6.

Os médios que construíam andam agora pelas zonas de finalização.

Que defesa a 4 consegue lidar com 6 avançados? Que dupla de centrais não perde o norte quando a sua referência de marcação desaparece e lhe surgem dois criativos pela frente?

E o lateral o que deve fazer? Agarra o extremo que fugiu para dentro? Corre atrás do lateral adversário que aparece que nem uma flecha? Fecha no avançado que ali apareceu na procura da tabela?

Mas agora perdeu-se a bola. Como defender com só um defesa?

Pressionando alto. Dos 6 avançados 3 atiram-se aos defesas. Os outros 3 cobrem-lhes as costas, juntando-se aos 3 que estavam na linha média do campo. E já estamos num 1-6-3.
O adversário sobe, quatro médios vão à pressão, outro recua para junto do central e o outro cobre o espaço. Estamos num 2-7-1, com os extremos a recuperarem a zona de pressão do segundo terço do terreno.

A bola não vai chegar controlada ao nosso terço defensivo. Pelo menos não pelo adversário. Mas chegando estão lá 2. Aliás, já estão 4. Ou 5. Ou 6.

É que o Futebol, pelo menos aquele que mais me encanta, é um jogo de apoios, é um desporto colectivo onde todos jogam unidos em cada zona do campo.

E esta é a maravilha do 4-3-3. De um equilibrio parte-se para um desiquilibrio trabalhado.

É a táctica que mais exige dinamicas, mais exige inteligência, mais exige criatividade e mais exige trabalho. É portanto uma táctica talhada para os melhores.

Sempre quis um 4-3-3 no nosso Benfica. O Jorge Jesus é um treinador de dinâmicas mas avesso à posse de bola e ao controlo do jogo. Gosta de uma equipa de ataques rápidos. Pelos menos assim o era no Benfica. Deixava a criatividade para os atacantes e por isso jogava logo com 4.

Sabia que para vencer em Portugal não tinha de controlar mas sim de esmagar. E o caminho mais fácil para tal era largar 4 atacantes criativos nas defesas adversárias. Daí o seu muitissimo trabalhado 4-2-4.

Já o Rui Vitória é um fã do 4-3-3 - sistema de jogo que tentou implementar no Benfica assim que cá chegou.
Faltou talento e faltaram ideias. O 4-3-3 que trazia era um 4-3-3 de contra-ataque e não o soube transitar para um clube dominador.

Rapidamente cedeu aos processos que já eram naturais a esta equipa. Os maus resultados assim o exigiram.

Mas o 4-2-4 não é o seu habitat. Tem vindo a procurar variações que o deixem mais confortável, que deixem a equipa mas próxima de um sistema de 3 médios. Seja jogando com um médio interior direito ou jogando com um segundo avançado em zonas de construção.

Olhemos para o papel.

Fejsa com Renato; Pizzi mais encostado à direita mas procurando espaços interiores; Jonas a cair para a direita; Nico na esquerda; Mitro no centro do ataque. 4-3-3.

Fejsa com Pizzi; Salvio na direita; Cervi na esquerda; Jonas a vir buscar jogo ao centro do terreno; Mitro no centro do ataque. 4-3-3.

São algumas variações do 4-3-3. São variações que criam maiores equilibrios e apoios no 4-2-4 de Jorge Jesus, perdendo-se aquela vertigem que era sua marca.

O actual treinador do Benfica continua na sua senda por criar uma equipa à sua imagem. Quer recuperar o seu 4-3-3. Nada contra Mister. Só não gosto do caminho que tem seguido.

Esta época já vimos Rui Vitória lançar um 4-3-3 puro. Contudo é sempre num contexto defensivo. Quer os 3 médios não para os apoios ofensivos mas para tapar os buracos defensivos. Por isso apresenta sempre o um triângulo não invertido, com dois médios trabalhadores na base.

E esta é uma base da qual parece já não abdicar.

O vértice mais ofensivo tem sido oferecido ao Jonas, pelo menos enquanto não puder abdicar de um sistema com dois avançados.

Neste caminho temos perdido os nossos dois construtores de jogo. Pizzi e Jonas. A inteligência, a criatividade, a mobilidade. A cola da equipa. O mister começa a não saber o que fazer com eles.

E não são os únicos. Olhemos ao Zivkovic, extremo a quem "falta rasgo".

No entender de Rui Vitória o 4-3-3 é um sistema de contra ataque. 3 médios para fechar, dois extremos para rasgar, um avançado para finalizar.

Mas num clube grande, numa equipa que tem de partir uma linha defensiva de 10 jogadores, tal sistema não funciona.

Esta época os problemas defensivos eram óbvios. O treinador do Benfica respondeu reforçando defensivamente o meio-campo. Assim surgiram agora os problemas criativos.

É que ainda por cima "O Jonas não pode jogar em 4-3-3 pois não consegue actuar sozinho na frente". Esquecendo-nos nós que neste sistema, pelo menos quando montado para dominar dinamicamente, nunca um avançado actua sozinho no centro do ataque.

O Rui quer um 4-3-3. Terá dedos para este piano?

Os caminhos do 4-3-3 são infinitos. Receio que o nosso treinador esteja a optar pelo caminho da perda dos criativos.

E a magia do 4-3-3 está na criatividade.



sábado, 4 de novembro de 2017

Aqueles Jogos na Nossa Quintinha

Trimmmmm

Hora de almoço. Mas mais que isso. Hora de calçar as chuteiras. Hora de alguém ir a correr marcar as balizas.

"Leva a minha camisola."
"A minha também!"

Sopa. Prato. Fruta.

Sair do refeitório e desatar a correr. Uns por aqui. Outros por ali. Cada um pelos seus atalhos. Todos com o mesmo destino - o pó da bola a rolar no pelado da nossa Quinta.

Temos balizas. Falta a bola. Quem tem bola? Temos adversários.

Chuteiras, pó, calções, pedrinhas, t-shirt, suor e sol.

"Quem vai à baliza?"
"Últimos!"
"Penúltimos!"
"Bora começar! Já perdemos 10 minutos!"

E rola a bola. Todos nós, todos crianças, todos na mesma correria, dezenas de pernas no mesmo movimente desenfreado por todo aquele pelado.

Há bolas por todo o lado. Umas invadem campos alheios. Outra foi para o galinheiro. Outra subiu a rede e caiu na mata.

Aparecem os fintinhas. Aparecem os primeiros esfolamentos. Aparecem os petardos de força. E lá vêm as mãos agarrar de dor locais onde a bola nunca deveria encostar.

Surgem as primeiras discórdias.

"Saiu!"
"Não saiu!"
"É nossa!"
"Não, é nossa!"
"A bola é minha eu é que mando."

O vento bate na cara. A bola está dominada. Em velocidade ele passa por um, tabela com o amigo, passa pelo terceiro, vai rematar, vai ser golo... e o lance é varrido.

Bola lá para o fundo. Pedras no joelho. Mãos esfoladas.

"Falta!!! É falta."
"Foi limpo! Foi na bola. Não sejas maricas, joga à bola!"

Começa a confusão. Todos correm uns para os outros.

Mas rapidamente lá aparece o do costume. Agarra a bola, chuta para o adversário. Sabe que a bola era da sua equipa mas não quer perder tempo. Ele só quer é jogar.

"Não há nada. Segue o jogo. Vamos jogar."

Está confiante que não precisa daquele falta para ganhar. A seguir corre mais para compensar a sua equipa.

É um jogo entre amigos e colegas. É um jogo entre miúdos que só se querem divertir antes de voltarem às lições sobre os Rios Europeus e as Datas dos Descobrimentos.

O importante ali é jogar, correr, passar, rematar e marcar.

A simplicidade juvenil de um Futebol onde tudo o que importa é ver a bola rolar.

Mas a infância esmorece na idade adulta. Duas equipas já não podem decidir sobre uma falta, de quem é o lançamento e nem se a bola entrou. E imaginem quando se mete o fora-de-jogo ao barulho...

É necessária ajuda. Quem decida por nós. Uma pessoa. Um árbitro. Acertada ou errada, é necessária uma decisão que permita que o jogo continue.

O Futebol é um jogo onde duas equipas disputam a bola e a tentam colocar na baliza adversária.

Duas equipas. Duas balizas. Uma bola. Golo.

O árbitro vem ajudar o jogo a fluir. O árbitro vem tomar as decisões que adversários não conseguem tomar. E a equipa de arbitragem vem ajudar o árbitro a decidir bem.

A nossa infância está tão distante que já nos esquecemos de como aqui viemos parar.

Atacamos quem nos vem ajudar. Sem razão. Com razão. Sem piedade. À bruta. Sem escrúpulos. E só porque sim. 

Para quê dificultar ainda mais o que foi criado para nos permitir jogar?

Naquele pelado o jogo parava por não haver decisão. No relvado agora pára para se contestar cada decisão.

Em tempos idos, o professor de ginástica era uma benção.  Era o professor e o que ele dizia era ordem. Ponto. E o jogo seguia.
Até sempre Stôr Dario. Bem haja Stôr João Pedro.

Mas agora nos estádios exigimos o mais bem preparado de todos. Exigimos que não erre. Nunca. Pelo menos não contra nós. Exigimos que siga a nossa decisão.

Na quinta o miúdo dava a bola ao adversário só para poder jogar mais um pouco.
Hoje o dirigente pede processos, exige jarras, aponta corrupção, contrata pessoas para questionar o árbitro e pede faltas de comparência.

O miudo defendia o jogo. O crescido ataca-o.

Esquecemos as raízes. As origens do jogo. O valor desta paixão. A necessidade que esta acarreta. 
Com ou sem razão, criticamos cada decisão.

Nunca serei contra as contestações, as análises dos lances nem à exigência de desempenhos arbitrais cada vez melhores.
Só não posso aceitar que tão facilmente percamos noção do motivo de existir um árbitro. Não consigo assumir por regra que a equipa de arbitragem existe para prejudicar. Não entendo que percamos o discernimento de perceber que uma decisão errada não passa somente disso e que o erro apenas nasce da necessidade de o jogo continuar. 

Vivemos num Futebol onde o árbitro é o vilão. Não percebemos o seu papel. Não entendemos as suas dificuldades. Não reconhecemos o seu contributo. É mais uma equipa que joga contra nós. É um individuo ali colocado para nos prejudicar. Há sempre uma intenção malévola no seu apito.

O importante já não é a bola rolar. 

É o Futebol negócio cada vez mais indiferente à paixão do jogo.

É um jogo já tão distante daquele que disputámos naquele campo.

É a saudade dos tempos jogados lá naquela velha Quinta.

São as memórias que não me falham.